Promotor
Associação Zé dos Bois
Breve Introdução
Com tanto vaticínio fatalista apregoado ao rock ao longo de décadas e décadas de revisões, ruminação e assombrações, não deixa de ser curioso perceber que, mesmo que este nunca tenha morrido, há hoje um certo reavivar de espírito em torno do género, a que não será imune a passagem de algum tempo após o isolamento pandémico? A natureza cíclica deste não-futuro traz uma permanência do presente que ao olhar para o que já foi feito vai encontrando formas de subsistir e, mais importante até, de afirmar a sua urgência nestes tempos. Contando com as suas devidas distâncias, partindo de genealogia mais ou menos remota do hardcore de vistas largas, de caminho aberto pela SST ou Dischord, e que se dissemina com bravura em outras frentes em espírito e ética até aos dias de hoje, podemos pensar em nomes como Mannequin Pussy ou Gel como uma frente de ataque inspiradora e capaz de arrastar para a frente do mosh pit as mais diversas hordas de gente em comunhão electrificada. E por aí podemos encontrar também Gouge Away.
Com nome sacado à malha final de 'Doolitle', é inegável pensar na influência de Pixies na música de Gouge Away, mas isso é um exercício meio redundante para o espectro dantesco de músicas que se acenderam sob a aura do quarteto de Boston. O balanço entre a fúria e a delicadeza, a vertigem do abismo e a suspensão eterna das canções aí marcado sofreu já tantas mutações que chega a este quinteto da Flórida como mero vestígio para uma música vincada, sorvedora das linhagens mais essenciais e expelida com a crença quem as vive intensamente e agora. 'Deep Sage', terceiro disco da banda, lançado no ano passado pela Deathwish Inc. após um hiato de praticamente cinco anos, continua na senda de 'Burnt Sugar' de 2018 mas traduz melhor essa mesma crença nas canções por via de arranjos mais incisivos e uma maior dinâmica, capaz de soltar respirações ao ruído, novas revelações. Ecos de Unwound, Team Dresch, Nü Sensae ou da cartilha menos bota da tropa da Amphetamine Reptile pairam sob aqui, mas nunca como portal nostálgico. Conduzidas pela voz e lírica assertiva de Christina Michelle, entre berros lacinantes - o tema título ou o final angustiante de 'The Sharpening' -, melodias de maior candura - Dallas - e aquela pose meio alucinatória - Overwatering -, as feras de 'Deep Sage' contemplam momentos intempestivos atirados à jugular e passagens dissonantes em tensão num mesmo comprimento de onda que deixa memória, com a barragem de guitarras ancorada na precisão rítmica do baixo e da bateria, em busca de catarse colectiva, uma e outra vez. Porque assim o é necessário. BS
Abertura de Portas
20:30
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